23 abril, 2009

deve ser esse o momento de colocar um ponto final,
de dizer 'chega' pra essa educação humilhante, essa necessidade
de aceitação e essa negação ao que se sente primitivamente.

17 abril, 2009

mal começou
e eu, já cansei!
é tudo tão talvez, reclusão, pouca luz,
nenhum ardor. risos tímidos, poucas
gargalhadas. rua muita vazia, pouca criança
na rua, muito domingo, muita escuridão.
tanta folha no chão,
pouco verde, muito marrom.
início de hibernação,
nenhuma perna de fora, poquissimas miniblusas, nada de chinelos,
muito de meia, tenis, sapato, bota. muito casaco tirado do armário,
nada de praia, de batuque de final de semana, de água gelada, muito chá.
muito cinza, marrom, preto. nada de roxo, azul claro, amarelo verão, laranja sol.
tá tudo tão outono que sei lá, não vai.
comprei aquarela pra brincar até o verão chegar.
não faço poesia, poema, crônica.
não tem nada de literário no
cimento que me envolve, na defesa
que criei e na fuga que inventei.

me falta arte nos poros.
me falta sanidade.
dói não conseguir exprimir o que me atormenta,
o que me desespera, o que navalha minha carne.
as palavras se confundiram, espalhadas no chão,
já não consigo escolhe-las, encontrá-las.
rapidamente passo meus olhos pelas paredes preenchidas
por anos e nada sai, nado encontro.
dificultaram a racionalização dos meus sentimentos,
já não consigo moldar de concreto o que sinto.

16 abril, 2009

ser nunca foi fácil.
deixar a ferida sangrar até que se resolva
parar sempre incomodou. deitar-se a noite
ao lado de tantas palavras confusas e emoções
intensas doeu muito mais que os tombos de bicicleta
quando menina.

escrevo sobre o desespero de ser, sentir.
registro o que me grita aos olhos.
não faço nada que me mandem,
não sei fazer nada sem sentimento. não sei disfarçar a intensidade
no olhar, não sei falar sem extremos. não sei passar e não deixar
rastros. falo do que pula dos poros, do que vem da carne, das visceras.
- oi, quis lhe escrever muitas vezes mas tudo foi rápido, você não imagina como.
quanto tempo se passou daquela manhã dolorida? não sei exatamente.
lembro da tarde em que você veio e parecia se despedir. vi algumas manchas
no seu rosto mas preferi não questionar.
ainda sinto falta da sua gargalhada, da sua sagacidade, do seu abraço. lembro
que meus braços quase se juntavam, vc era só osso. sempre foi. osso e beiço.
espero que não doa mais aquelas munições que perfuraram seu corpo.
sinto sua falta.
já não tenho mais contato com aquela turma imensa.
avistei o bruno na padaria, eu estava longe e nem mexi. o danilo é pai de uma
menina linda e o dirceu continua mancando por aí! sim, ele está exatamente o msmo,
falo de vez enquando. moisés quase nao vejo, sei que casou e também tem uma menina.
acredito que não mantenho contato com as meninas?
os rumos eram diferentes, chegou um momento que não falávamos a mesma língua.
kauê da janinha tem oito anos e olhos imensamente azuis. ele é igualzinho a mãe. vi fotos.
pasme, a angrinha tá grávida. janinha me contou que é uma menina. nos falamos pela
internet, vc ia gostar. todo mundo por ali se fala, mas quase ngm se vê. a aline continua
na igreja, vi em fotos que namora outro moço, não casou nem teve filho.
e eu, ah, eu... continuo baixinha, meu cabelo é o msmo (a cor), nunca mexi nele. agora tenho
tatuagens pelo corpo. pinto as unhas e uso um alargador. lembra que nem brinco eu usava?
morei em outra cidade um tempo, mas tive que voltar. quase fui internada em hospicio.
passei a tomar um monte de remédio e frequentar psiquiatra mensalmente. psicologo semanalmente. não sei o que ocorreu. minha mente resolveu pifar. larguei duas faculdades,
agora sofro com os pensamentos sobre o que ser quando crescer, mas já cresci, não na altura,
claro.
lembro de vc sempre. vejo seu pai pela rua, indo pra casa, creio eu. sempre no final da tarde.
não sei se o tempo ou se o sofrimento, mas o olhar dele me parece cada vez mais distante e frio.
o adidas hemp não vende mais, procurei um tempo, mas foi em vão. nunca mais voltamos
ao sítio e as ruas do bairro sempre estão muito vazias.
sinto falta de te encontrar subindo a rua de casa, cm o gingado malandro e cantarolando um rap.
aquela baladinha dominical não existe ha mto tempo e ninguém mais anda de bicicleta ou patins por aqui.
espero que não sinta mais dor, que suas mãos não estejam mais geladas e que seus lábios estejam secos. espero que a voz ainda saia e o sorriso ilumine o lugar que tiver,
sinto saudades.

15 abril, 2009

e gritam aos sentidos: não petrifica, deixa fluir, deixa sentir, deixa sangrar. pra que estancar? deixa jorrar. ferida aberta ventila melhor, casca forjada só piora.
e gritam, com força, vontade, desespero, insanidade.
mas nunca me dei bem com as dores, sei calá-las como ninguém. sei ignorá-las, passar concreto por cima. nunca deixei com que me tomasse, me deixasse padecer por quaisquer segundos. preferia que passassem a ser física, tratar assim era bem melhor. entorpecer de dor até drenar nunca foi do meu conhecimento.

14 abril, 2009

cada vez mais doloroso.
silencio que ensurdece,
palavra que ecoa,
grito que entala,
a cobrança que se instala,
a culpa que corrói.

- até que horas essa ferida vai sangrar?
tá difícil, né?
tá remoendo?
coçando?
é, dá pra ver nos seus olhos,
já não consegue disfarçar a ânsia
pelos detalhes, acompanham
como se ninguém notasse.
a luz forjada nao tem a mesma força.
os passos são os msmos,
a despreocupação de sempre,
com a diferença da intensidade no olhar,
que arrasta extremos sem ter a pretensão.

13 abril, 2009

a coisa complica,
as vozes ficam mais fortes,
os olhares refletem a cobrança do mundo,
a vontade se torna forçada,
tudo resolve ficar cinza,
a chuva que cai, rasga a carne,
o sol se esconde,
o verde se vai,
o marrom ganha força
e como se fosse aquarela,
o pincel vai passando e transformando o desenho
dos seus olhos. fica assim, tudo outono.

09 abril, 2009

[pensamento rápido impedia de pensar em regras
gramaticais.]
havia dias que precisava de musica alta,
musica brasileira, com palavras que entrassem
em sua mente e perambulassem, fazendo
com que eliminasse o que queria gritar.

havia dias que cortava lentamente cada
vão pedaço do corpo que lhe deram,
que sentia prazer em ver o sangue denso
escorrer do seu corpo,
que gritava cantando musicas que nao entendia
só pelo prazer de perder a voz.
que andava incansavelmente para que o cansaço
a prendesse numa cama.
que coçava os olhos até a vermelhidão e o ardor
se instalarem.
que pedia à terra que a engolisse.
desata esse nó que me aperta,
me corta, me arranca a carne.
desfaz esse laço, mal feito, sem jeito.

me tira desse descompasso maldito.
liberta esse punho preso de mágoas,
essa canela pingando tristeza.

desata esse nó.
esse aqui, esse nó.
preciso dos punhos livres
pra jorrar sangue nas veias
que alimentam meu toque.
ESSE NÓ, desata pra mim.


[gritava]

08 abril, 2009

nunca fora linear.
brincava com palavras, com imagens, com cores, com o mundo.
corria dentro de si,
buscava raiz que a segurasse num quadrado de concreto,
gritava pra surdos, sorria pra cegos.
tateava insensiveis. queria todos os sentidos,
misturados. queria traduzir os cheiros,
descrever as cores minuciosamente.
queria gritar, mas queria que ouvissem.
gritava pra aceitar o que era incontrolável,
gritava pra se ouvir,
gritava e gritava, e gritava pra ter certeza.